Dez

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Carta que a jornalista Leonor Macedo da Revista TPM escrveu para o filho no seu décimo aniversário.

Fala da vida… simplesmente a vida! Bem bacana!

 

Filho,

Chegamos aos teus 10 anos. DEZ! Essas datas redondas são significativas por algum motivo que não sei bem explicar. Aos 10, você larga a decoração infantil das festas e pede para a sua mãe um bailinho com DJ só porque você quer dançar agarradinho com a menina mais bonita da classe; aos 20, você acorda com um cachorro de rua lambendo a sua boca depois de tomar o maior porre da vida em um bar com seus amigos para se despedir da adolescência; aos 30, você se torna balzaquiano e tem a certeza de que passará o resto da vida solteiro – e termina a noite tomando um porre de vinho com teus amigos e combinando com algum deles que se chegarem aos 40 solteiros, vocês se casam. Aos 40, a vida começa de novo e por aí vai…

E é assim pra todo mundo, filho. A vida não é tão surpreendente em um só aspecto: ela acontece todos os dias, ela não pára pra ninguém, independentemente de qualquer surpresa que possa surgir. Eu já te contei antes, em outras cartas, que você foi uma surpresa, não é? Me pegou de calças curtas, me deixou tonta, suando frio, com medo do futuro, cheia de dúvidas e acho que foi assim com todo mundo. Mas a minha vida nunca parou, Lucas. Você não deixou a minha vida parar um só minuto.

Um dia desses, uma menina que conheceu a nossa história me escreveu para contar que a sua irmã adolescente tinha tido um filho e que andava um pouco triste porque achava que a sua vida tinha parado. Quer dizer, ela tinha essa impressão porque deixou de estudar pra cuidar do filho, não saía mais com os amigos, não namorava mais, não tinha tempo pra cuidar dela mesma, enfim. Aí eu contei pra ela exatamente isso que eu estou te contando: que por mais que a gente não perceba, a vida está rolando, no gerúndio mesmo, o tempo todo. E que filhos, mesmo aos 19 anos, mesmo de uma forma não planejada, não significam renunciar à própria vida, pelo contrário. Significam ter que dar o melhor da sua vida.

Parece um grande livro de auto-ajuda tudo isso, mas quero te contar como tudo rolou pra mim (ou melhor, para nós!) porque no decorrer da tua vida, seja em datas redondas ou não, você vai se deparar com situações que parecem imobilizadoras, mas não são.

Nós sempre fomos de uma família classe média (e #classemédiasofre, filho!): sua avó deixou de trabalhar para cuidar de mim e do seu tio quando nascemos e vivemos a vida toda com o salário de jornalista do seu avô, que nunca foi grandescoisa (embora nunca tenha nos faltado nada). Estudamos em escolas públicas, mas sempre moramos em um bairro legal de São Paulo. Fui andar de avião pela primeira vez aos 23 anos, acho, mas nunca deixamos de viajar nas férias, mesmo que tenha sido o mesmo destino todo ano: Olímpia, cidadezinha no interior de São Paulo para onde você ama ir.

Enfim, filho, quando eu engravidei de você aos 18 anos, já tinha terminado o colegial e estava sem estudar há algum tempo porque não tínhamos a menor condição de pagar uma faculdade. Eu trabalhava em uma creche como auxiliar de escritório das 7h às 17h e ganhava R$ 400 por mês. Naquela época, R$ 400 era o equivalente a R$ 400, ou seja, uma miséria. E aí, eu engravidei. Quer dizer, que perspectiva eu tinha de criar você com R$ 400, trabalhando o dia inteiro e sem a menor chance de crescer profissionalmente sem ter feito uma faculdade?

 

A situação parecia imobilizadora e desesperadora e é por isso o suadouro, o medo, as incertezas. Eu andava com uma cara de “E agora?” pra cima e pra baixo, mas uma das primeiras coisas que eu ouvi de seus avós quando contei que estava grávida foi:

– Agora você vai estudar.

E eles me disseram que ficariam contigo enquanto eu estivesse na faculdade e eu teria todo o tempo que fosse preciso para tentar arrumar as coisas. A vida te dá esse tempo, filho, mas você tem que fazer a sua parte. E meu tempo era curto. Quando você tem um filho, você pisca e ele já anda, você pisca de novo e ele já fala, você pisca mais uma vez e ele te pede uma playboy de aniversário!

Aí eu olhei a lista de universidades que estavam com vestibular aberto, me inscrevi em alguns e fui fazer a prova. Em uma delas, na que me formei jornalista, o vestibular foi um dia antes do seu nascimento. Um dia! Eu fui enorme, mais grávida impossível, com você pesando 4,100 kg dentro de mim, com mais uns 4 kg de placenta, água e blá blá blá.

Era um domingo chuvoso, me lembro bem. Fui a única (ou uma das únicas) a poder subir de elevador porque meu local para fazer a prova era láááááááááá no último andar. Eu parecia uma astronauta andando na lua, parecia uma velhinha de 100 anos andando devargazinho, mas com cara de moleca. Todo mundo na rua me olhava como se eu fosse uma extraterrestre quando estava grávida de você.

Quando eu cheguei à sala, avisei aos fiscais da prova que a minha cesariana estava marcada para o dia seguinte e passei o telefone do seu pai, dos seus avós, do seu tio, para qualquer emergência, caso eu entrasse em trabalho de parto naquele momento. Acontece, filho, principalmente quando as mulheres ficam muito nervosas e um vestibular costuma deixar as pessoas nervosas. Mas eu não fiquei em momento algum. Todo aquele meu nervosismo do começo já tinha passado porque eu sabia que a vida me daria todas as horas que eu precisasse pra te fazer um menino feliz.

Fiz a prova, voltei pra casa e no dia seguinte fui pra maternidade. Você nasceu e dois dias depois eu soube que tinha errado somente quatro questões de 80, tirei 10 na redação e era a 15ª colocada em 15 mil pessoas que tinham prestado o vestibular. Ok, a prova tinha sido fácil, é verdade, mas eu sequer me lembro de uma questão que caiu: minha cabeça estava em você o tempo todo.

Seus avós ficaram contigo todas as noites que eu precisei para poder estudar, ir ao bar e aprender a jogar sinuca em algumas aulas chatas, fazer melhores amigos, conhecer outro tanto de gente, namorar. Mas não é só isso que é viver, não é mesmo? Viver é um conjunto de coisas e a principal delas me esperava em casa quando eu saía, me acordava no meio da noite e me colocava em movimento o dia inteiro. Você sempre me impulsionou a seguir em frente.

De lá pra cá, filho, eu consegui um financiamento estudantil para pagar a faculdade (e terminei de pagar só esse ano), me formei jornalista, arranjei dois estágios ao mesmo tempo, muitos freelas, fui efetivada em todos os lugares pelos quais passei, nunca fiquei um dia só sem emprego. Sustento, junto com seu tio, seus avós, que cuidam de você todos os dias, desde o primeiro.

Você estuda em uma boa escola que eu posso pagar com a ajuda do seu pai, fez kung fu (e vai voltar, né?), fez natação (e enjoou, né?), fez escolinha de futebol (e era um desastre, né?), escolhe onde comer de vez em quando, vai em quase todos os jogos do Corinthians, viajou de avião pela primeira vez com 6 anos de idade e vai pra Disney no fim do ano. Tua vida é boa demais como a minha sempre foi e sou feliz por poder (por podermos, no plural) te proporcionar isso.

Aos 10 anos, Lu, não é cedo pra te ensinar que no decorrer de toda a sua vida, você vai se deparar com situações difíceis, muito difíceis. Que às vezes vai suar frio, se desesperar, chorar escondido. Vai ter insônia, vai ter muitas dúvidas. Mas existem respostas para todas elas. Basta você ter se cercado, a vida inteira, de gente que te move, que te impulsiona, que te faz caminhar em frente. De gente que não te atrasa, que não te imobiliza, que não te joga pra baixo. Olhe pro lado, Lucas, e veja a família que você tem, olhe para os seus amigos. São eles que vão te dar uma porção de respostas, mas é preciso que você queira buscá-las, uma por uma. Até que surja na tua vida alguém tão absurdamente importante quanto você é pra mim. E vai surgir, e vai ser maravilhoso!

 

Enquanto isso, estou sempre aqui. Nas datas redondas e quadradas. Desejando que a vida te traga todas as certezas que um dia você quiser encontrar.

Te amo muito.

Feliz aniversário.

Mamãe.

(Source: revistatpm.uol.com.br)

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Sobre Camila Andrade

Psicóloga graduada pela PUC-SP e pós graduada em Arteterapia pelo Instituto Sedes Sapiense. Eterna estudante de fenomenologia existencial heideggeriana e filosofia. Libriana com ascendente em peixes, apaixonada pelas expressões humanas, sobretudo as que se revelam através da arte. Ilustração, fotografia e poesia são minhas paixões! Amo as cores, as combinações inusitadas, os descombinados. O óbvio que não é óbvio muito me interessa... Na minha opinião o complexo pode ser bem interessante!

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