Precisamos entender tudo?

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Precisamos entender tudo?

Essa é uma pergunta que sempre me faço… porque compreendemos o entender como racionalizar as coisas? Será que entendimento é sinônimo de conseguir explicar tudo? Precisamos saber de tudo?

Me parece que o entendimento é mais vasto que isso… passa pelo sentir.

No consultório é muito comum que depois de muito trabalho, muita reflexão, os pacientes enfim consigam entender os mecanismos, sentimentos, pensamentos que atuam e os fazem se enrolar com a vida, sofrer, sentido-se estagnados. Mas isso não costuma bastar!

Esse é o momento em que vem a pergunta: “Ok, faz muito sentido, mas o que eu faço com isso?”, “Como transformar essa razão, esse entendimento, em sentimento, em atitude, em vida nova?”. E essa é uma grande questão! É dela que começa de fato o processo terapêutico, pois somos razão, mas também corpo, sentimento… precisamos integrar tudo isso para estarmos plenos.

Clarice Lispector uma vez escreveu: “Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca”.

O entendimento é mais vasto do que a razão. Entendemos com os olhos, com o coração, com gestos. E nesse sentido o trabalho arteterapeutico pode ser muito interessante, pois abre um canal de comunicação além das palavras, colocando no foco a simbologia das imagens, dos gestos, da poesia para dar voz a aquilo que é indizível, a aquilo que se sente e não se explica, mas que tem o seu sentido e conta sobre nós para nós mesmos.

O texto abaixo, da Adriana Falcão, é muito interessante, pois explica o significado das palavras com sentimento, usando palavras. Uma pitada de provocação para estimular as reflexões…

“MANIA DE EXPLICAÇÃO

Era uma menina que gostava de inventar uma explicação para cada coisa.

Explicação é uma frase que se acha mais importante do que a palavra.
As pessoas até se irritavam, irritação é um alarme de carro que dispara bem no meio de seu peito, com aquela menina explicando o tempo todo o que a população inteira já sabia. Quando ela se dava conta, todo mundo tinha ido embora. Então ela ficava lá, explicando, sozinha.
Solidão é uma ilha com saudade de barco.
Saudade é quando o momento tenta fugir da lembrança pra acontecer de novo e não consegue.
Lembrança é quando, mesmo sem autorização, seu pensamento reapresenta um capítulo.
Autorização é quando a coisa é tão importante que só dizer “eu deixo” é pouco.
Pouco é menos da metade.
Muito é quando os dedos da mão não são suficientes.
Desespero são dez milhões de fogareiros acesos dentro de sua cabeça.
Angústia é um nó muito apertado bem no meio do sossego.
Agonia é quando o maestro de você se perde completamente. Preocupação é uma cola que não deixa o que não aconteceu ainda sair de seu pensamento.
Indecisão é quando você sabe muito bem o que quer mas acha que devia querer outra coisa.
Certeza é quando a idéia cansa de procurar e pára.
Intuição é quando seu coração dá um pulinho no futuro e volta rápido.
Pressentimento é quando passa em você o trailer de um filme que pode ser que nem exista.
Renúncia é um não que não queria ser ele.
Sucesso é quando você faz o que sempre fez só que todo mundo percebe.
Vaidade é um espelho onisciente, onipotente e onipresente. Vergonha é um pano preto que você quer pra se cobrir naquela hora.
Orgulho é uma guarita entre você e o da frente.
Ansiedade é quando faltam cinco minutos sempre para o que quer que seja.
Indiferença é quando os minutos não se interessam por nada especialmente.
Interesse é um ponto de exclamação ou de interrogação no final do sentimento.
Sentimento é a língua que o coração usa quando precisa mandar algum recado.
Raiva é quando o cachorro que mora em você mostra os dentes.
Tristeza é uma mão gigante que aperta seu coração.
Alegria é um bloco de Carnaval que não liga se não é fevereiro.
Felicidade é um agora que não tem pressa nenhuma.
Amizade é quando você não faz questão de você e se empresta pros outros.
Decepção é quando você risca em algo ou em alguém um xis preto ou vermelho.
Desilusão é quando anoitece em você contra a vontade do dia.
Culpa é quando você cisma que podia ter feito diferente, mas, geralmente, não podia.
Perdão é quando o Natal acontece em maio, por exemplo.
Desculpa é uma frase que pretende ser um beijo.
Excitação é quando os beijos estão desatinados pra sair de sua boca depressa.
Desatino é um desataque de prudência.
Prudência é um buraco de fechadura na porta do tempo.
Lucidez é um acesso de loucura ao contrário.
Razão é quando o cuidado aproveita que a emoção está dormindo e assume o mandato.
Emoção é um tango que ainda não foi feito.
Ainda é quando a vontade está no meio do caminho.
Vontade é um desejo que cisma que você é a casa dele.
Desejo é uma boca com sede.
Paixão é quando apesar da placa “perigo” o desejo vai e entra.
Amor é quando a paixão não tem outro compromisso marcado. Não. Amor é um exagero… Também não. É um desadoro… Uma batelada? Um enxame, um dilúvio, um mundaréu, uma insanidade, um destempero, um despropósito, um descontrole, uma necessidade, um desapego? Talvez porque não tivesse sentido, talvez porque não houvesse explicação, esse negócio de amor ela não sabia explicar, a menina.”

Livro Mania de Explicação

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