Ser impulsivo é diferente de ser espontâneo

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Ser impulsivo é diferente de ser espontâneo

“Sou o que se chama de pessoa impulsiva. Como descrever? Acho que assim: vem-me uma idéia ou um sentimento e eu, em vez de refletir sobre o que me veio, ajo quase que imediatamente. O resultado tem sido meio a meio: às vezes acontece que agi sob uma intuição dessas que não falham, às vezes erro completamente, o que prova que não se tratava de intuição, mas de simples infantilidade. Trata-se de saber se devo prosseguir nos meus impulsos. E até que ponto posso controlá-los. […] Deverei continuar a acertar e a errar, aceitando os resultados resignadamente? Ou devo lutar e tornar-me uma pessoa mais adulta? E também tenho medo de tornar-me adulta demais: eu perderia um dos prazeres do que é um jogo infantil, do que tantas vezes é uma alegria pura. Vou pensar no assunto. E certamente o resultado ainda virá sob a forma de um impulso. Não sou madura bastante ainda. Ou nunca serei.”

Clarisse Lispector

Ser impulsivo é diferente de ser espontâneo, mas a confusão é comum. Aliás, ser si mesmo (autêntico) exige muito trabalho. É preciso consciência e enfrentamento, pois os limites são muito tênues!

Agir por impulso é dispensar a razão, esquecer o outro e dar vazão para uma série de sentimentos e ideias que pulam para fora e se fazem acontecer sem muita responsabilidade. Os resultados só são medidos depois e as consequencias nem sempre são boas. O famoso “ops, só pensei depois”.

O problema é que, nesse caso, aquele que recebeu a ação acaba tendo que lidar com o impacto dela seja ele qual for. E esperamos extrema compreensão, afinal quando agimos sem pensar estamos nos colocando de forma sincera e sinceridade é uma virtude. Mas será mesmo?

Todo mundo tem suas questões, dificuldades, um lado bonito e outro feio que são difíceis de lidar. Será que temos que obrigar os outros a lidar também com os nossos?

Não estou fazendo apologia ao individualismo, ao contrário, estou reconhecendo que derramar sobre os outros as nossas energias, sem nenhum cuidado, é, além de egoísmo, um ato de desrespeito a si mesmo.

Quando nos desrenponsabilizamos de nossas ações estamos nos abandonando e vamos, aos poucos, esquecendo que as escolhas são nossas. Nos sentimos submetidos, vítimas. Frases como “sou sincero demais e isso incomoda as pessoas”ou “hoje não se pode ser quem se é porque a sociedade não permite” são comuns.

A questão é que ser espontâneo é diferente de ser irresponsável!

Ser espontâneo é agir com naturalidade, sem as amarras da vaidade, sem a necessidade de dissimular, de esconder aquilo que não nos agrada. É agir sem medo do julgamento alheio, mas com respeito a opinião do outro. Ser espontâneo é ser si mesmo, com consciência e liberdade! Porque a espontaneidade implica em estar confortável com o que se é. É um “poder ser” livre, consciente, JUNTO, NO MUNDO!

Quando convivemos com uma pessoa espontanea podemos não nos afinar com o jeito dela, mas é inegável seu brilho, pois nos inspira confiança, verdade. Podemos nos aproximar sem medo porque não há uma tentativa de esconder alguma coisa. Simplesmente é.

É conseguir ser coerente dentro da coerencia (muitas vezes incoerente) dos outros.

Simples assim?! Hahahahaha! Com certeza não! Pelo menos para mim…

Não sei de onde veio essa ideia de que existir é fácil, basta nascer e deixa a vida correr seu curso rumo a felicidade no final do arco iris… existir exige esforço e dedicação porque a gente confunde as coisas. É preciso simplificar!

Como escreveu Clarice Lispector, “Que ninguém se engane, mas só se consegue a simplicidade através de muito trabalho”. Então bora continuar a luta!

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