O tempo. Ah, o tempo!

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Já havia passado muito tempo. Dois anos.

Pediram um chopp. Havia muita conversa para colocar em dia.

Ficaram ali muito tempo, mas não parecia. Tomados pelo prazer da companhia um do outro, saíram do bar e caminharam pelas ruas. Já era tarde e não havia quase ninguém para testemunhar aquele encantamento. Nem perceberam.

Desde a troca do primeiro olhar sentiram-se como se ninguém mais habitasse o mundo. Eram só os dois.

A conversa era natural e deliciosa. Podiam passar meses envolvidos daquela maneira sem perceber as horas, os dias. Que horas seriam? Para que mesmo serve o tempo?

Não se lembram mais do que conversaram.

Era bom. Muito bom. E intenso.

Mais impossível do que irem cada um para sua casa era ficarem juntos naquela noite. Estavam assustados e entregues. Um conhecido desconhecido, complexo e delicioso. Alumbramento.

Como seria desnudar-se já estando desnudo? Como seria? Precisavam saber.

Qual o preço da curiosidade? Curiosidade?

Desejo.

E o que mais é o desejo senão uma vontade de descobrir?

Foi maravilhoso!

O som da lua cheia resplandecia pela sala do sobrado e a luz dos acordes da música iluminava o momento. Tinha cheiro de carinho, alegria de novidade e uma brisa leve e macia. Fazia muito calor.

O dia amanheceu, mas continuaram sonhando. O momento só acaba quando termina e o tempo era o deles. Perderam a noção e encontraram…

Parecia amor. Era intenso e leve.

Braços, abraços, pernas, beijos, sensações, olhares. Continuavam conversando. Em silêncio.

Ainda eram só os dois, mais nada. Tudo.

Adormeceram.

Os carros passavam frenéticos lá fora. O telefone tocou. Sentiram fome. Tudo ficou muito mundano.

Como pode tamanha intensidade? Parecia muito complexo para a razão e sentiram medo. Não havia nome.

Queriam saber mais do que o gosto. Mas não sabiam.

Saber implica compreensão.

“O que eu faço com você?”, disseram um para o outro.

Não fizeram nada.

Ainda estão se perguntando.

E o mundo voltou ser habitado e as horas voltaram a ser contadas.

Será que ainda dá tempo?

 

Camila Andrade

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Sobre Camila Andrade

Psicóloga graduada pela PUC-SP e pós graduada em Arteterapia pelo Instituto Sedes Sapiense. Eterna estudante de fenomenologia existencial heideggeriana e filosofia. Libriana com ascendente em peixes, apaixonada pelas expressões humanas, sobretudo as que se revelam através da arte. Ilustração, fotografia e poesia são minhas paixões! Amo as cores, as combinações inusitadas, os descombinados. O óbvio que não é óbvio muito me interessa... Na minha opinião o complexo pode ser bem interessante!

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