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O que é arteterapia e como ela se insere na psiquiatria?

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A arteterapia é uma técnica que utiliza linguagens artísticas, linguagens das representações simbólicas e da criatividade como forma de se auxiliar o paciente a se expressar e como ferramenta terapêutica. Rudolph Arnheim, figura importante no mundo das artes disse que  “A capacidade inata de compreender através dos olhos está adormecida e deve ser despertada.“ Isso porque na nossa sociedade priorizamos a fala como método expressivo e acabamos nos esquecendo que existem outros canais de contato, reduzindo o homem a aquilo que as palavras permitem dizer.

A arteterapia então está baseada na ideia de que ao explorar canais expressivos pouco utilizados pelo homem é possível despertar facetas adormecidas do indivíduo, ampliando seu repertório e possibilitando novas estratégias de enfrentamento, além de permitir um olhar mais ampliado da relação do paciente com a sua patologia, facilitando a adaptação e reinserção social.

As neurociências, a partir de seus estudos sobre o funcionamento cerebral, têm demonstrado que a expressão através da arte e os produtos criados através dessa linguagem envolvem níveis motores, somatossensoriais, visual, emocional e aspectos cognitivos de processamento de informação com a ativação dos correspondentes processos neurofisiológicos e estruturas cerebrais. Tais achados demonstram a grande potencialidade desse recurso em tratamentos de patologias que envolvem a neurobiologia.

Munida desse conhecimento, a arteterapia trabalha estimulando a integração funcional dos diversos níveis segmentares do sistema nervoso, porque as atividades envolvem desde o planejamento de um projeto, até a sua organização e execução, passando por avaliações dos sentimentos, das percepções e da qualidade do contato entre terapeuta e paciente.

As pesquisas apontam que a expressão de sentimentos pela via da arte, que tem o potencial de os concretizar em imagens, formas, cores ou gestos, e a vivência de situações que na vida cotidiana são usualmente reprimidas e censuradas propicia conexões neuronais semelhantes as que acontecem se a pessoa viver de fato a situação, ou seja: experimentar na arte é semelhante a experimentar na vida.

Por ser uma ciência nova, nascida por volta de 1940, tão nova quanto a conquista tecnológica dos exames de imagem funcional do cérebro, ainda não existem muito estudos científicos específicos que demonstrem, de maneira concreta, a sua efetividade nas psicopatologias, sendo o artigo EXPLORATORY RCT OF ART THERAPY AS AN ADJUNCTIVE TREATMENT IN SCHIZOPHRENIA, referente a um ensaio clínico randomizado controlado, publicado no Journal of Mental Health de 2007 a mais importante evidencia científica da área.  Nele, dois grupos foram avaliados, um com tratamento psiquiátrico padrão e outro com tratamento psiquiátrico padrão mais arteterapia por 12 semanas, com sessões grupais semanais. Foram aplicadas escalas para avaliação dos sintomas negativos antes e depois desse período observando-se que 45% dos indivíduos do grupo com arteterapia apresentaram redução estatisticamente significante dos sintomas negativos no final do período de intervenção e mantiveram estes resultados numa reavaliação após 6 meses.

Uma evidencia bastante animadora, mas ainda incipiente para afirmar que a arteterapia melhora os sintomas negativos. Outras pesquisas estão em andamento.

Ao mesmo tempo, na minha prática clínica observo que a arteterapia, além de melhorar os sintomas dos pacientes psiquiátricos, fato este que corrobora os achados do estudo, é também uma ferramenta interessante de diagnóstico psíquico, uma vez que facilita o contato do paciente e do terapeuta aos conteúdos psicodinâmicos do adoecer e permite trabalhar através do simbólico as possibilidades de enfrentamento e significação, oferecendo ao médico psiquiatra mais uma ferramenta de trabalho e mais uma via de contato, fator valioso para essa área da medicina que trabalha primordialmente com a observação, contato e relato do paciente e de seus familiares para construir os diagnósticos.

Texto escrito por mim e publicado no boletim eletrônico da PAX Clínica Psiquiátrica do mês de setembro.