Conselho para minhas amigas: Sobre homens, árvores e amores

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Esse texto é da minha amiga Carol Moraes, que além de uma nutricionista mega competente é uma pessoa incrível, muito sensata, sensível e com uma cabeça ótima. Compartilho muito das opiniões dela por isso achei que cabia reproduzir esse texto aqui.

Ele tem feito muito sentido pra mim nos últimos tempos, permeando minhas reflexões pessoais e também os papos com as amigas.

Sentimento é cultivo… no fim é a gente que complica! Eu também quero!

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Vejo a maioria das minhas amigas, solteiras ou não, insatisfeitas com o “comportamento masculino”. Utilizando-se de frases que tem virado clichês, “os homens andam tão estranhos”, “não sabem o que querem”, “não querem nada sério”, e por aí desenrola uma ladainha de
lamentações, seguidas de conselhos, tão clichês quanto as próprias, indiferente do tempo, das situações ou das pessoas envolvidas. “Ele não ligou? Não mandou mensagem? Não te pediu em casamento? Não te salvou da torre do dragão e não te colocou no lombo do cavalo branco?
ELE SIMPLESMENTE NÃO ESTÁ Á FIM DE VOCÊ. Será?

Será que todo amor tem que ser avassalador, arrebatador e instantâneo? Será que em dois olhares, uma saída e uma conversa, você tem que saber que aquela pessoa é o “amor da sua vida”?

Que tipo de relação funciona assim? Que tipo de relação de sucesso se constrói assim? Você faz amizades assim? Decide onde quer viver para o resto da sua vida assim? Eu não…

Eu quero acreditar, e principalmente aprender, que relações são construídas, sejam elas amizades, romances, sociedades, amores… E não impostas, me ame agora ou suma, esteja pronto ou desapareça. O que é isso minha gente? Onde vamos chegar com tanta desconfiança e agressividade? Eu respondo, exatamente onde já estamos agora, todos sozinhos, perdidos, loucos por alguém, mas sem conseguir RELACIONAR-SE…

Começo a pensar que a maioria das mulheres não querem efetivamente amar, querem ser salvas, tomadas e levadas para o reino do “so so far away” bem longe da vista do dragão (que talvez seja tudo aquilo que a gte nem quer ver… Mas que fazem parte da nossa vida…). Algo como “vamos fugir para outro lugar… Onde a gente escorregue…” Ou seja, busca-se um companheiro de FUGA e não alguém para dividir a vida, CONviver, com dragões, jacarés e bruxas…

Dessa forma colocamos os homens no papel de réu, prestes a serem julgados, cobrados, e riscados da “listinha de possíveis pretendentes”, caso ele não se enCAIXE, no papel de príncipe que alguém um dia determinou que ele deveria cumprir. Ser, humano, deixou de ser direito, e passou a ser defeito.

Esse homem, não pode ter medos, angustias, dúvidas, sequer tempo, para te conhecer, ele tem que rapidamente, simplesmente e decididamente te olhar e a partir daquele momento doar a sua vida, seu trabalho, sua família e sua herança toda em seu nome, porque você TEM QUE SER, a mulher da vida dele. Ele tem que se jogar na relação como alguém que salta no abismo escuro, sem medo ou dúvida e não tem direito sequer a uma lanterna, que dirá uma corda…

Então é disso que vocês falam quando falam de amor? De um salto no vazio? Esse amor quero não hein…

Espero mais do que alguém com a cara quebrada no chão, áspero e duro que muitas vezes é a minha vida…

Eu quero me dar ao direito de mostrar que além do vazio, e além de toda a dureza, há também no repertório do meu existir, jardins e pomares, e que, na época certa, se bem cuidados, estão sempre a florescer e frutificar, mas que para isso enfrentam chuvas fortes, cortes, secas, estiagens, como a natureza perfeitamente ordena e funciona…

Eu espero que o amor seja um plantio em solo arado, preparado, cultivado, cuidado, molhado, respeitado, para NA HORA CERTA, colher os frutos ou perfumar o ar com suas flores… “eu quero a sorte de um amor tranquilo com sabor de fruta mordida…” sabe???

As pessoas se esqueceram desse tempo, do tempo em que a fruta foi apenas uma semente, uma possibilidade, um talvez, uma aposta, mas que em união com um solo fértil e mais um montão de coisas, como chuva, nutrientes, vento, passarinhos, abelhas, acabou dando certo… Assim NATURALMENTE…

Vejo todos saindo por aí em busca de uma árvore pronta, já crescida, com fruta fresca, de preferencia orgânica, adequada ao seu solo, que sequer tiveram o cuidado de preparar… Querem simplesmente que a árvore SIRVA… Não basta mais ter a mesma filosofia de vida, ter alguns gostos em comum, uma vontade de conversar, de estar junto e fazer amor gostoso… Não, longe disso, é preciso gostar, assim como você, do sushi de barbatana de tubarão branco dos mares da Austrália, senão NÃO SERVE. Não basta gostar de esportes, tem que gostar de arco e flecha praticado nos campos da Irlanda, senão NÃO SERVE. Oe? E a gente vai ser siamês então ne? Isso é o “combinar” que vocês falam?

E nisso se baseia uma séria de relacionamentos na filosofia do “time is Money”, fast-food, consumo, consumo, consumo… Seja o “combo” que eu preciso, “BIG”, que preencha e transborde todo esse meu vazio e rápido, e AGORA, pelo preço que posso pagar, o mínimo. Sirva-me agora ou te descarto… Te odeio e te ceifo sem o menor toque de compreensão, paciência ou respeito.

Depois se perguntam porque um após outro, não encontram ninguém que “queira um relacionamento”… Sem o menor senso de auto-análise se perguntam: “o que está acontecendo com AS PESSOAS?” “O que está acontecendo com O MUNDO?”. Eu devolvo a pergunta com todo o carinho e humildade: O QUE ESTÁ ACONTECENDO COM VOCÊ MINHA FILHA?

Você já parou para pensar como estão eles? Os homens? Depois de tudo o que “conquistamos”, em uma sociedade onde a mulher faz questão de gritar e esgoelar: EU NÃO PRECISO DE HOMEM, eu me basto! Eu posso tudo! (E antes que as discípulas de Beauvoir me chicoteiem em praça pública, digo, PODEMOS MESMO. Inclusive retomar o lugar que nos é
natural de mulher, feminina, sem com isso perder nossa principal conquista, o poder de escolha.) Voltando…

Você espera que ele esteja PRONTO, simples assim, como em gondolas de exposição, de preferencia em liquidação, pra você, independente que é, ir lá e “adquirir”, testar e descartar em caso de defeito “de fabrica”? Como você pode esperar isso, se nem você está pronta? Ou
está? Não né… Ainda bem, porque uma pessoa pronta, na minha opinião, é uma pessoa acabada, chegou ao fim, evoluiu tudo, não precisa mais de ninguém, ou seja, já pode morrer… será que o amor só existe no paraíso?? Heheheh

Aí nessa loucura de gente se procurando sem se encontrar, criam-se “regras” modernas na tentativa, falida, de simular um modelo perdido da princesa no castelo cercado por fossos quase intransponíveis, só acessado pelo príncipe mais forte, mais lindo, mais rico, mais tudo do
reino. Coisas do tipo: “mulher tem que ser difícil” (leia-se impossível); se ele realmente quiser, ele vai te ligar, te achar, te raptar, te salvar”. Você está proibida de ligar, mandar email, dizer
que gosta, que tem saudades, ou seja, tranque-se na torre, calada e espere que se ele for “O CARA” ele vai dar um jeito…

Ah para né gente! Já passamos dessa fase, já conquistamos o direito de nos expressar, de dizer: – ei vamos devagarzinho, vamos nos conhecer, vamos ver as luas… Você tem medo? Eu também, mas tá tudo bem… vamos tentar… Enquanto isso a vida segue, a minha, a sua, e a gente vai compartilhando o que der, o que for possível, o que der vontade…” Sem deixar de lado o espaço das outras “coisas” da vida da gente, os outros amores, a começar pelo “próprio”, o amor da família, a realização no trabalho, o amor dos amigos e por aí vai…” é tanto amor e possibilidades de alegrias e vida na vida da gente. Porque raios, alguém achou que uma pessoa, um único SER humano seria capaz, e principalmente, necessário para preencher isso tudo? Porque mesmo?

Eu estou abrindo mão aqui e agora de um amor “avassalador”, dramático e arrebatador… Quero não viu “Brésil”… Quero um amor semente fértil pro meu solo, para crescermos juntos, tentando, ajustando, ciclando, conforme as luas e as estações… Enquanto isso, vou cuidando do meu solo, tomando meus cuidados, cerquinha branca em volta, porteira aberta, mas com “mata burro”, claro…

E, depois de tanta filosofia, me deu vontade de ir ali, abraçar uma árvore, afinal como já disse aquele “filósofo do you tube” “as árvores somos nozes”…

Carol Morais

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O tempo. Ah, o tempo!

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Já havia passado muito tempo. Dois anos.

Pediram um chopp. Havia muita conversa para colocar em dia.

Ficaram ali muito tempo, mas não parecia. Tomados pelo prazer da companhia um do outro, saíram do bar e caminharam pelas ruas. Já era tarde e não havia quase ninguém para testemunhar aquele encantamento. Nem perceberam.

Desde a troca do primeiro olhar sentiram-se como se ninguém mais habitasse o mundo. Eram só os dois.

A conversa era natural e deliciosa. Podiam passar meses envolvidos daquela maneira sem perceber as horas, os dias. Que horas seriam? Para que mesmo serve o tempo?

Não se lembram mais do que conversaram.

Era bom. Muito bom. E intenso.

Mais impossível do que irem cada um para sua casa era ficarem juntos naquela noite. Estavam assustados e entregues. Um conhecido desconhecido, complexo e delicioso. Alumbramento.

Como seria desnudar-se já estando desnudo? Como seria? Precisavam saber.

Qual o preço da curiosidade? Curiosidade?

Desejo.

E o que mais é o desejo senão uma vontade de descobrir?

Foi maravilhoso!

O som da lua cheia resplandecia pela sala do sobrado e a luz dos acordes da música iluminava o momento. Tinha cheiro de carinho, alegria de novidade e uma brisa leve e macia. Fazia muito calor.

O dia amanheceu, mas continuaram sonhando. O momento só acaba quando termina e o tempo era o deles. Perderam a noção e encontraram…

Parecia amor. Era intenso e leve.

Braços, abraços, pernas, beijos, sensações, olhares. Continuavam conversando. Em silêncio.

Ainda eram só os dois, mais nada. Tudo.

Adormeceram.

Os carros passavam frenéticos lá fora. O telefone tocou. Sentiram fome. Tudo ficou muito mundano.

Como pode tamanha intensidade? Parecia muito complexo para a razão e sentiram medo. Não havia nome.

Queriam saber mais do que o gosto. Mas não sabiam.

Saber implica compreensão.

“O que eu faço com você?”, disseram um para o outro.

Não fizeram nada.

Ainda estão se perguntando.

E o mundo voltou ser habitado e as horas voltaram a ser contadas.

Será que ainda dá tempo?

 

Camila Andrade

Um fragmento da história de nós dois

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Ele ligou porque estava com saudade, mas disse que era qualquer outra coisa. Já fazia tempo que não entrava em contato e queria saber se estava tudo bem.

Ela corou. Adorou ouvir a voz dele. Sentiu medo de ser mesmo apenas preocupação. Queria que fosse outra coisa, mas guardou segredo. Não contou nem para si mesma.

Já fazia tempo, mas imediatamente perceberam que embora tivessem dado voltas pelo mundo, cada um num mundo diferente, ainda estavam conectados. Era muito forte.

Ela descreveria como complexo e interessante.

Ele não descreveria porque nunca conseguiu explicar. Faltavam palavras.

Conversaram por horas. Nada havia mudado, só o tempo.  Ah, o tempo! E a vontade. Era muita.

Um dia se encontraram e compreenderam a dimensão da complexidade e da intensidade. Se amaram.

Ela se encantou pelos olhos dele e sentiu medo.

Ele se angustiou com o indizível.  E por não compreender também sentiu medo.

Perderam-se de novo.

Tanto carinho e respeito exigem prudência e cuidado. Foi melhor assim.

Será?!

Engraçados são os paradoxos.

Ele, um tanto quanto racional e objetivo teve dificuldades para explicar aquele afeto porque não encontrava no vocabulário expressões que se encaixassem naquilo. Resolveu ir embora e apenas sentir.

Ela pouco se importava em explicar. Sempre achou que as palavras eram insuficientes e ficava feliz por apenas sentir. No entanto, não conseguia lhe dizer o que precisava e ficou tomada pela sensação de que só enviava as mensagens erradas. Está até agora procurando palavras para lhe dizer.

Quem sabe um dia.

Camila Andrade.

Querendo gostar de limonada. Será que é possível?

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Sentir-se perdida é tão angustiante! Aff!!!

Mas nos desencontros da vida é que temos a oportunidade de encontrar o novo porque ao nos perdemos saímos do conforto do conhecido e somos forçados a experimentar. E vamos combinar que esse movimento de novidade não é algo que fazemos cotidianamente… eu pelo menos não tenho esse desprendimento (ainda! – sonho com ela…).

Sabe aquela história de fazer do limão uma limonada? É super clichê, mas porque não? A acidez, mesmo com sua falta de doçura tem um gosto bem interessante. De repente, deixar de fazer cara feia e se entregar ao deleite das delícias de um sabor azedo pode ser um dos caminhos para vida mais leve.

Novos sabores. Estou em busca!!! Ainda dá tempo de incluir na lista de metas para 2013?!

Acho que sim!!!

 

E para ilustrar esse pensamento segue um texto que li faz tempo e que revisito sempre…

 

Um limão, meio limão, dois limões

Era um limão.

Um mera fruta que por descuido caiu da bolsa de feira de uma senhora apressada em pegar o trem.

Não era nada, mas nada mesmo, apenas um limão.

Ficou ali, verde e ácido, jazendo suicída na linha de ferro.

Ferro e limão não combinam.

Mas o limão caiu justo em cima das pedras de brita que separam os dormentes, que separam o trilho, que separam o trem do limão.

Sem querer, e sem dar-se conta, o limão ao cair ao solo da bolsa da apressada e decuidada senhora, acabou por cortar-se.

E desse corte do limão liberou-se uma pequena e ácida semente nas pedras de brita que separam os dormentes, o trilho e o trem.

A semente sem querer, e sem dar-se conta, foi-se indo pelas pedras de brita e por entre elas encontrou, por mero acaso, o solo, onde fazia calor e caia a água do ar condicionado do trem, que por ali passava como bem dizíamos.

Foi então que a semente ácida do limão experimentou crescer.

Foi-se fazendo maior, maior, maior, a ponto de virar uma pequena folha por entre as pedras de brita que separavam o dormente.

É engraçado, mas aquela folha ali, no meio das pedras de brita, não chamou a mínima atenção de ninguém e esse foi o motivo pelo qual o pequeno limoeiro conseguiu crescer dentro de suas limitações, uma delas a de ser limado pelo trem, que continuava passando e ignorava solenemente os esforços verdes-ácidos em progredir.

O limoeiro cresceu então para os lados até tomar a forma retangular delimitada pelo encontro dos dormentes, trilhos e, evidentemente, pela força de um trem na sua cabeça.

Curiosamente, começaram a brotar limões, mas não redondos como de hábito e sim retangulares, como era o normal para aquele limoeiro.

Aqueles limões quadrados, fruto da caída inesperada de uma bolsa de feira de uma senhora descuidada e apressada, tinham uma propriedade absolutamente espetacular.

Ocorre que a combinação de brita, dormente de ferro, água de ar condicionado e solo quente dotou os limõezinhos de uma capacidade de cura para qualquer tipo de doença causada por vírus, mas evidentemente isso não passou pela cabeça de ninguém.

Um belo dia o chefe da estação mandou limpar o mato que se acumulava nos trilhos e o bonsai ácido-ferroso acabou virando carregamento no caminhão de lixo da companhia municipal de limpeza.

Por ironia, no ano passado aquela senhora, desatenta e apressada, veio a falecer vítima de uma gripe fortíssima para a qual a medicina ainda não dispunha de medicamentos eficazes para combatê-la.

Do blog: O Eco – A voz de quem fala para as paredes by Flávio de Miranda on 26/08/09

Que venha 2013!!!

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apocalypse now

“(…) A cada um desses pequenos apocalipses temos a chance de recomeçar. Partidos, aos pedaços, às vezes colados como um Frankenstein de filme B. Enquanto o meteoro não chega há sempre um possível que podemos inventar. Se os anúncios de fim do mundo servem para alguma coisa, além de fazer piadas e encher os bolsos de alguns espertos, é para nos lembrar de que o mundo acaba mesmo. Não em apoteose coletiva, com dia e hora determinados, mas na tragédia individual, sem alarde e sem aviso prévio, que desde sempre está marcada na vida de cada um de nós.”

(trecho de “Malditos Maias!“, Eliane Brum)

Este foi o texto mais lúcido que li sobre o tão falado apocalipse. Para nós, que temos nossas tragédias pessoais e fins do nosso mundo particular de tempos em tempos, vivendo dia a dia vários novos fins e (re)começos, e mesmo assim continuamos em pé, do luto à luta. Que venha 2013.

Li esse post no Drops de Anis e resolvi repostar porque deu voz para aquilo que tem povoado meu coração e minha mente. Que venha 2013!!!

Uma bússola nova

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* Trecho é do filme “Comer, Rezar e Amar”.

De repente tudo muda e isso nos arrasta como um tsunami. Olhamos em volta e nos desesperamos porque as coisas se transformaram abruptamente, sem nosso consentimento. São os momentos de crise… Mas será que precisamos consentir?
Por que é tão difícil entendermos que o ritmo da vida é cíclico e não linear… que somos nós é que não consentimos com o fluxo natural da existência? Existir implica em mudar!!! Senão para que serve existir?

Quando tudo se transforma de uma hora para outra sentimos angustia e vazio porque parece que um pedaço de nós morre e fica um buraco… uma ausência… Dói muito! Muito mesmo… mas a cada dia que passa me convenço de que dói porque nos baseamos em paradigmas equivocados.

Drummond escreveu:

Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.”

Ando apaixonada pela simbologia do ouroboros e tenho usado muito a palavra carpe diem… quero incorporar mais esses conceitos no meu ser…

Preciso de uma bússola nova para me guiar!!! Agora eu já sei… e estou feliz!!!

O que é arteterapia e como ela se insere na psiquiatria?

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A arteterapia é uma técnica que utiliza linguagens artísticas, linguagens das representações simbólicas e da criatividade como forma de se auxiliar o paciente a se expressar e como ferramenta terapêutica. Rudolph Arnheim, figura importante no mundo das artes disse que  “A capacidade inata de compreender através dos olhos está adormecida e deve ser despertada.“ Isso porque na nossa sociedade priorizamos a fala como método expressivo e acabamos nos esquecendo que existem outros canais de contato, reduzindo o homem a aquilo que as palavras permitem dizer.

A arteterapia então está baseada na ideia de que ao explorar canais expressivos pouco utilizados pelo homem é possível despertar facetas adormecidas do indivíduo, ampliando seu repertório e possibilitando novas estratégias de enfrentamento, além de permitir um olhar mais ampliado da relação do paciente com a sua patologia, facilitando a adaptação e reinserção social.

As neurociências, a partir de seus estudos sobre o funcionamento cerebral, têm demonstrado que a expressão através da arte e os produtos criados através dessa linguagem envolvem níveis motores, somatossensoriais, visual, emocional e aspectos cognitivos de processamento de informação com a ativação dos correspondentes processos neurofisiológicos e estruturas cerebrais. Tais achados demonstram a grande potencialidade desse recurso em tratamentos de patologias que envolvem a neurobiologia.

Munida desse conhecimento, a arteterapia trabalha estimulando a integração funcional dos diversos níveis segmentares do sistema nervoso, porque as atividades envolvem desde o planejamento de um projeto, até a sua organização e execução, passando por avaliações dos sentimentos, das percepções e da qualidade do contato entre terapeuta e paciente.

As pesquisas apontam que a expressão de sentimentos pela via da arte, que tem o potencial de os concretizar em imagens, formas, cores ou gestos, e a vivência de situações que na vida cotidiana são usualmente reprimidas e censuradas propicia conexões neuronais semelhantes as que acontecem se a pessoa viver de fato a situação, ou seja: experimentar na arte é semelhante a experimentar na vida.

Por ser uma ciência nova, nascida por volta de 1940, tão nova quanto a conquista tecnológica dos exames de imagem funcional do cérebro, ainda não existem muito estudos científicos específicos que demonstrem, de maneira concreta, a sua efetividade nas psicopatologias, sendo o artigo EXPLORATORY RCT OF ART THERAPY AS AN ADJUNCTIVE TREATMENT IN SCHIZOPHRENIA, referente a um ensaio clínico randomizado controlado, publicado no Journal of Mental Health de 2007 a mais importante evidencia científica da área.  Nele, dois grupos foram avaliados, um com tratamento psiquiátrico padrão e outro com tratamento psiquiátrico padrão mais arteterapia por 12 semanas, com sessões grupais semanais. Foram aplicadas escalas para avaliação dos sintomas negativos antes e depois desse período observando-se que 45% dos indivíduos do grupo com arteterapia apresentaram redução estatisticamente significante dos sintomas negativos no final do período de intervenção e mantiveram estes resultados numa reavaliação após 6 meses.

Uma evidencia bastante animadora, mas ainda incipiente para afirmar que a arteterapia melhora os sintomas negativos. Outras pesquisas estão em andamento.

Ao mesmo tempo, na minha prática clínica observo que a arteterapia, além de melhorar os sintomas dos pacientes psiquiátricos, fato este que corrobora os achados do estudo, é também uma ferramenta interessante de diagnóstico psíquico, uma vez que facilita o contato do paciente e do terapeuta aos conteúdos psicodinâmicos do adoecer e permite trabalhar através do simbólico as possibilidades de enfrentamento e significação, oferecendo ao médico psiquiatra mais uma ferramenta de trabalho e mais uma via de contato, fator valioso para essa área da medicina que trabalha primordialmente com a observação, contato e relato do paciente e de seus familiares para construir os diagnósticos.

Texto escrito por mim e publicado no boletim eletrônico da PAX Clínica Psiquiátrica do mês de setembro.